domingo, 30 de junho de 2013

A morte do treinador Alexis Martínez

Aos 25 anos de idade, Alexis Martínez, tornara seu sonho em realidade trabalhando com Orcas no Loro Parque. Mas esse sonho, como ele próprio já pressentia e comentava com familiares, estava para virar um terrível pesadelo que colocaria um fim em sua própria vida.
O Loro Parque, parque localizado em Tenerife, nas ilhas espanholas das Canárias, exibe desde aves a leões marinhos e golfinhos, mas desde o ano de 2006, com o empréstimo efetuado pelo americano SeaWorld, passou a exibir apresentações diárias com Orcas. Todos os treinadores do Loro Parque foram orientados pelos mais experientes treinadores do SeaWorld, mas infelizmente, nem todo o conhecimento compartilhado pôde impedir o que estava por vir.
Alexis era jovem, estava noivo da namorada de 7 anos, era uma pessoa gentil, divertida e tocava numa banda em suas horas vagas. Ele havia batalhado muito pela oportunidade de trabalhar no parque, mas já há alguns meses reclamava da rotina intensa de trabalho, da agressividade das Orcas e do baixo salário que recebia comparado ao risco que corria diariamente nesta atividade. Apesar disso, ele foi escalado junto a outros treinadores para preparar e apresentar um show especial de Natal.

No dia 24 de dezembro de 2009, exatamente dois meses antes da morte da treinadora Dawn Brancheau, que ganhou grande espaço na mídia mundial, Alexis estava preparando o show especial, juntamente aos demais treinadores, com a Orca macho, chamado Keto. Keto, que estava com 13 anos de idade, pesava três toneladas. Ele não apresentava comportamento agressivo, tanto que era um dos animais que consideravam que podiam interagir na água sem problemas. Não havia restrições com relação a isso. Das quatro Orcas emprestadas na época pelo SeaWorld, somente ele e Kohana eram considerados seguros para trabalhos na água.
Naquele dia, o humor de Keto estava sendo considerado bom. Apenas não estava muito focado, pois parecia mais interessado com o que ocorria no tanque ao lado do que no treino.
Em determinado momento, Keto passou a responder com uma certa agressividade e não estava atento aos comandos, além de estar um tanto fora de controle. Chegaram a observar que ele estava com o olhos um pouco arregalados. Mesmo assim, continuaram a sessão de treinamento.
Na insistência de desempenhar um dos movimentos de impulsão do treinador, Keto passou a ser de fato agressivo com o Alexis e logo perderam o controle da situação. Ao perceber o comportamento alterado da Orca, outros treinadores tentaram chamá-la, mas o comando foi completamente ignorado. Keto então foi em direção ao Alexis e com o focinho foi empurrando-o para o fundo do tanque. De acordo com o depoimento de um supervisor assistente, Keto bateu nele e brincou com seu corpo de forma violenta. Ele permaneceu no fundo do tanque por aproximadamente 3 minutos. Keto chegou a submergir uma vez, mas sem o Alexis. Em seguida, mergulhou novamente e dessa vez voltou ao topo com o corpo do treinador, que estava desacordado, sangrando pelo nariz e pela boca. Tentaram ressuscitação cardiopulmonar, mas nada conseguiram... Alexis estava morto!

Alexis e Keto (foto de Estel Moore)

Demoraram mais de uma hora para informar a família sobre o incidente. E quando o fizeram, disseram que o Alexis havia se afogado durante o treinamento com uma das Orcas.
A família só tomou conhecimento real dos fatos quando viram o laudo da necrópsia que continha informações como: cortes e contusões, colapso dos pulmões, fraturas nas costelas e no esterno, laceração no fígado, órgãos vitais gravemente danificados e marcas de furos "consistentes com os dentes de uma orca". Concluíram, portanto, que a causa imediata da morte fora líquido nos pulmões (ou seja, afogamento), mas que a causa fundamental havia sido "asfixia mecânica por compressão e esmagamento do tórax e do abdome com lesões nos órgãos vitais".

Antes da Orca Keto ter chegado ao Loro Parque seu perfil já indicava que ele não tinha facilidade de se adaptar a novos ambientes e que não gostava de passar muito tempo separado de outras Orcas. Ele já havia ignorado comandos e demonstrado agressividade, inclusive chegando a pegar com a boca a perna de uma treinadora, mas em nenhum desses eventos chegou a ferir ninguém. Seu mau comportamento, era geralmente associado à estrutura social em que estava inserido.
A morte de Alexis Martínez não ganhou qualquer destaque na mídia, tanto local, quanto mundial. Até hoje, não conheci nenhum brasileiro que soubesse deste caso. Isso demonstra como de fato esses parques não querem correr o risco de chamar a atenção do público sobre o quanto a manutenção de Orcas em cativeiro é equivocada, não só pelo bem estar do animal, mas pela segurança daqueles que interagem com elas. O caso de Dawn só ficou amplamente conhecido por conta da importância que o parque SeaWorld tem para o país e para turistas de todo o mundo, e por conta das características sensacionalistas da imprensa americana já bem conhecidas por todos nós.
Segundo a noiva de Alexis, Dawn, que se aproximou dele por ter sido uma das treinadoras que vieram do Seaworld para orientar a equipe do Loro Parque, foi extremamente gentil e solidária com a família dele após sua morte. Diferentemente da maioria dos envolvidos nesse processo, ela ficou extremamente sensibilizada e ofereceu todo seu apoio.

Alexis e Dawn (foto do arquio pessoal da família
dele já publicada na Internet)

O jornalista Tim Zimmermann escreveu em detalhes este trágico evento ocorrido no Loro Parque na reportagem "Blood in the water" (na tradução livre: "Sangue na água") publicada pela revista "Go Outside".
Em inglês, ela está disponível no link: http://www.outsideonline.com/outdoor-adventure/nature/Blood-in-the-Water-Keto.html. É possível encontrar uma versão em espanhol também pela internet.



P.S. 1: Keto já havia sido notícia aqui no blog na postagem de março deste ano "Endoscopia... Em Orcas?". Leia:

P.S. 2: o Loro Parque é o "lar" da Orca Morgan capturada do oceano na promessa falsa de reabilitação e soltura... 



Um comentário:

  1. Puxa, eu amo orcas e sei que elas só atacam quando se sentem pressionadas ou ameaçadas. Porém, este caso mostra como temos que respeita-los e não ao contrario.

    ResponderExcluir